SAÚDE CRÔNICA: A dor da partida

0
235

Quando eu era garoto, fiz diversas longas viagens de carro com meus pais. Naqueles tempos a maior tecnologia para ouvir música eram as fitas K-7, que tinham em média 60 minutos de gravação. Pois bem, em uma dessas viagens por rodovias interestaduais, estávamos sem fitas no carro (e eu não lembro por que), então meu pai parou em um posto de gasolina da beira da estrada e comprou três ou quatro fitas, dentre elas uma com as melhores músicas do Raul Seixas. Ele e minha mãe gostam muito até hoje, mas naquela viagem em especial, ouvimos as mesmas músicas por mais de 600 quilômetros.

No meio daquelas pérolas roqueiras, uma das músicas eu ouvi pela primeira vez e me deixou pensativo em sua letra. Na verdade até hoje eu penso na dura verdade que é a mensagem principal da melodia do Trem das 7. Nela, Raul Seixas canta que o trem vem chegando, apitando os que sabem do trem. Nele, não precisa passagem nem mesmo bagagem. Então, quem vai chorar e quem vai sorrir? Quem vai ficar e quem vai partir?

Essa música pode tratar a respeito de diversas mensagens, mas para mim, fala sobre o tempo. Essa palavra é tão volátil quanto os significados em que a empregamos. Por vezes quer dizer movimento; mas pode se referir à condição climática; ou pode se referir a uma época, a um período, um prazo, alguma hora específica; ou pode simplesmente se tratar de uma oportunidade.

E quantas oportunidades nós desperdiçamos por acreditar que sempre teremos mais tempo no futuro? Quantos momentos deixaram de ser vividos por acreditarmos que poderíamos fazer as mesmas coisas depois? Pois é, mas o que todo mundo sabe (ou deveria saber) é que o tempo não para e também não volta. Parece banal falar sobre isso, algo tão simples de entender. Mas não é bem assim. Acreditamos sempre ter mais tempo do que realmente temos.

E sabem de uma coisa? Vivemos para conquistar formas diferentes de aproveitar nosso tempo. Tudo o que fazemos está ligado diretamente ao nosso tempo. Quando trabalhamos, estamos colocando um preço sobre quanto tempo vamos precisar para desempenhar uma função; ou na quantidade de tempo que tivemos que estudar para aprender a aquela função. Mas o mais precioso de tudo é o tempo que dispomos para as pessoas que amamos. Nossos filhos, pais, esposa, marido, amigos… a lista é grande. Mas não muda o fato de que nosso bem mais valioso é o tempo, aquele em que passamos junto a essas pessoas e como aproveitamos esse tempo.

Hoje eu tenho certeza de falaria para o Janary de quase trinta anos atrás: Aproveite essa viagem de carro, ouça mais Raul Seixas com seus pais, brinque mais com seus filhos do parquinho… o tempo é tudo aquilo de melhor que temos a oferecer para outras pessoas. Nunca sabemos quanto tempo temos ao lado dessas pessoas, mesmo que elas apenas sigam por outro caminho…

Por Janary Damacena
Agência do Rádio Mais

Deixe uma resposta