Setor da indústria propõe ensino profissional como política de Estado

0
249
Foto cedida pela Agência do Rádio Mais

A lógica é simples. A educação de qualidade forma o bom profissional. No mercado de trabalho, serão os funcionários com melhor qualificação que conseguirão propor mais soluções. Nessa engrenagem, a produtividade está ligada diretamente a competitividade. Quem tem mais preparo trabalha mais e melhor e fomenta os processos produtivos dentro das empresas. Uma das soluções propostas pelo setor da indústria é eleger a educação profissional como política de Estado. É oferecer ensino aliado a oportunidades de carreira, de renda e interromper os vícios da educação brasileira voltados para a lógica da inserção no mercado de trabalho.

O Brasil gasta cerca de 6% do PIB em educação, acima, inclusive, dos países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 5,5%, como aponta estudo do Ministério da Fazenda. Nos últimos 20 anos, o gasto per capita por aluno da escola pública no Brasil quadruplicou, enquanto os resultados da Prova Brasil de 2015 são piores do que o da Prova Brasil de 1995. No relatório Aspectos Fiscais da Educação no Brasil do Governo Federal, o Brasil está nas últimas posições em avaliações internacionais de desempenho escolar.

Outro problema do país é o desemprego. No ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as taxas atingiram nível recorde. Para o diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), Rafael Lucchesi, o problema começa na matriz educacional. “Duas agendas são fundamentais. A primeira delas, melhorar a qualidade da educação, e, certamente, para se fazer isso, tem que melhorar a gestão da escola, maior eficácia da aplicação dos recursos, bem como a valorização da carreira do professor’, afirma.

Em segundo plano, continua Lucchesi, a escola tem que estabelecer uma relação que potencialize os jovens a realizar seu projeto de vida. Em uma situação hipotética, um jovem que sai da educação básica sem o devido conhecimento em áreas como matemática, língua portuguesa, e ainda não tem educação profissional, terá mais dificuldade para se inserir no mercado de trabalho. “O SENAI é um exemplo de educação profissional de excelência. O SENAI tem um papel decisivo para capacitar mão de obra para a indústria e 95% das vagas abertas pela indústria brasileira exigem a formação do SENAI”, indica o diretor.

Educação

Torna-se urgente uma mudança na matriz educacional. Entre os países que fazem parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cerca de 50% dos jovens fazem educação profissional junto com a educação regular. Em países mais desenvolvidos, como Áustria, essa média chega a 73%. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) sugere revisar a estrutura curricular e as metodologias de ensino, rever a Política Nacional de Formação de Professores e valorizar o magistério e a carreira docente para melhorar a qualidade da educação no Brasil.

O rol de propostas da indústria inclui ainda atuar sobre a composição da oferta de vagas com foco na educação profissional. Essa e outras sugestões foram encaminhadas a todos os candidatos à Presidência, para a construção de uma agenda em favor do desenvolvimento econômico sustentável do Brasil. “Nós temos um grande atraso ano com relação a essas sociedades. E aí o que nós fizemos? Nós fizemos um esforço grande de universalização, mas nós ainda não conseguimos alcançar a qualidade necessária”, finaliza Lucchesi.

Competitividade

Aumentar a competitividade da indústria e do Brasil e elevar o bem-estar da população ao nível dos países desenvolvidos é uma revolução que passa obrigatoriamente pela educação. Segundo o professor Jairo Eduardo Borges Andrade, professor titular da Universidade de Brasília (UnB), pesquisador em Aprendizagem, Processos Psicossociais e Mudança nas Organizações, a crença de que é importante melhorar a qualificação para aumentar a produtividade é algo que aparece antes da metade do século passado.

“Isso aparece em função de mudanças no mundo do trabalho, em função de uma nova etapa da globalização, aparece também em função de alguns exemplos que começaram a chamar muita atenção no mundo, de casos como esse na Coréia, de como a Coreia se torna mais competitiva em função de qualificação profissional, então essas coisas estão muito ligadas”, explica Jairo.

O professor pondera ainda sobre a lógica que permeia a sociedade, de que um diploma de nível superior é uma segurança para o futuro profissional. “O fato de você ter um nível de escolaridade superior não vai necessariamente garantir emprego. Você tem a questão do que é que você aprendeu, tem a questão do que é que o mercado de trabalho precisa e tem a questão das crises da economia. Nós estamos hoje vivendo uma crise econômica que aumentou o desemprego. Mas você tem dados sistemáticos que mostram que pessoas que têm mais qualificação profissional têm mais probabilidade de conseguir um trabalho e também de conseguir trabalhos melhores”, observa.

Por Camila Costa
Agência do Rádio Mais

Deixe uma resposta